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3 vezes que Israel nos ensinou sobre empreendedorismo

Em novembro do ano passado, pude apresentar a Gupy no Global Alumni Summit, um evento somente para CEOs de startups, no Google for Startups de Tel Aviv, em Israel. Foram cinco dias, doze CEOS de seis nacionalidades diferentes e muitos aprendizados. No entanto, três, em especial, resumiram minha experiência por lá.

Para contextualizar, Israel possui a maior concentração de startups do mundo. Para se ter uma ideia, existe uma startup para cada 400 habitantes. Se tirarmos China e Estados Unidos, é o país melhor ranqueado na bolsa de valores Nasdaq, além do que muitas empresas bastante conhecidas foram fundadas por lá, como Wix, Waze e Viber. Também, a cada dez pessoas, uma desempenha funções técnicas (TI, Programação, área acadêmica), e é onde há a maior concentração do mundo per capita de engenheiros e acadêmicos também. As referências particulares são inúmeras. Mas, qual o segredo? Por que existe uma cultura de startup tão forte no país, que faz com que eles sejam tão inovadores, globais e tenham produtos fora da curva? O que podemos aprender com o empreendedorismo israelense?

A começar, minha primeira reflexão foi que, por lá, existe uma cultura de conflito. E isso não é no mau sentido. Por aqui, temos o costume de o evitarmos para nos esquivar de um eventual estresse. No geral, cada país tem um modo, um jeito de tratá-lo nas relações interpessoais, seja com clientes, fornecedores ou internamente, nas equipes. Porém, no Brasil, ao invés de falar um não, preferimos optar pelo "vou pensar", "pode ser", "depois te falo", "veja bem", o que mostra o quanto temos receio de sermos tão diretos.

Já em Israel, é justamente o oposto. É o lugar onde as pessoas estão constantemente discutindo intensamente novas ideias, não aceitando de bate pronto a opinião do outro. Conflitar não quer dizer ser agressivo ou brigar, mas sim, entender se os pontos de vista batem, escutar opiniões e noções diferentes que possam fazer a diferença. Isso significa maior possibilidade de ideias, testes, ousadia e, consequentemente, inovações.

Ligada à questão do conflito, outra lição que esse país me proporcionou foi o comprometimento com a gestão. Embora as startups que conheci durante o período fossem todas bem diferentes, elas tinham em comum os mesmos problemas. Argentina, Estados Unidos, Polônia, UK, Espanha, Coreia do Sul… Não importa o lugar, sempre existem dilemas iguais, mesmo que em proporções diferentes.

Um dos aspectos que mais pude colaborar foi em relação a gestão de times. Sempre que possível, compartilhava minha visão e desafios sobre recrutamento e seleção à gestão de performance que vemos no Brasil por meio dos clientes da Gupy. Conversando com uma CEO da Coreia do Sul, vi que realmente podemos aprender muito com ambientes diferentes. Por exemplo, na Coreia do Sul, por lei, se o recrutador errar, não se pode demitir o contratado, é preciso avisá-lo seis meses antes sobre a situação e realocá-lo no mercado de trabalho para conseguir desligá-lo. Com isso, as empresas de realocação são super fortes no país por conta da demanda e forçam o recrutador a realmente não errar.

Por último, mas não menos importante, um ponto interessante visto por lá foi o valor da empatia. Em um dos cinco dias, conheci uma menina muito especial. Durante as minhas conversas com as startups, uma tímida jovem que assistia minha mentoria disse que havia criado algo e queria saber como vender. "Você é de qual startup?", perguntei. "Nenhuma. Quero vender algo que eu mesma criei". A jovem palestina, com apenas 16 anos e um inglês perfeito aprendido por meio de séries de TV e livros, me levou até uma sala e me mostrou uma caixa preta comprida. Quando abriu, tinha uma bengala feita à mão, cheia de fios e sensores, que tremia se estivesse a alguns metros de algum objeto físico ou empecilho, tudo ainda ligado a um Bluetooth que passava orientações de locomoção. De forma meiga ela começou a me explicar que tinha uma professora deficiente visual em sua escola e que, um dia, ela caiu no corredor. Sentida por aquela situação, ela resolveu criar a bengala tech para ajudá-la. "Para quem vendo e o que eu faço?", me perguntou, perdida. Não era da aceleradora, mas ficou sabendo que um pessoal de fora iria visitar o lugar e quis procurar auxílio.

Não acreditei no que via. Esta pequena prodígio, do auge de seus 16 anos, estava bem ali na minha frente e nitidamente tinha um potencial muito fora da curva que poderia ser perdido. Naquela hora, não pensei duas vezes: ela precisava ser assessorada. Rapidamente recorri aos meus colegas do Google e outros founders e logo a sala estava lotada, com muita gente também impressionada e emocionada pela engenhosidade apresentada ali. Hoje, essa menina está tendo o apoio de um time de Googlers para desenvolver seu potencial.

Problemas todos nós empreendedores temos, mas nunca estamos sozinhos. Os desafios são muito semelhantes e podemos aprender bastante ao compartilhar com nossos vizinhos no mundo. É preciso ter empatia para entender o contexto do outro e poder ajudar livre de pré-julgamentos.

 

* Mariana Dias é formada em Administração pela USP e tem especialização em Empreendedorismo e Inovação pela Universidade de Stanford. Começou sua carreira como trainee da Ambev, onde trabalhou por quatro anos e ocupou o cargo de Business Partner para a América Latina. É CEO e cofundadora da Gupy, líder de recrutamento com base em Inteligência Artificial e machine learning no Brasil.

Empreendedorismo Rosa
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