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A morte do artesanato como fonte de renda feminina

Eu queria saber se alguém contabiliza quantos projetos para capacitação de grupos de mulheres para a produção artesanal como forma de geração de renda NÃO DÃO CERTO.

Sou Andressa Trivelli e há mais de 5 anos estou envolvida diretamente no mundo “do artesanato como fonte de geração de renda para comunidades marginalizadas econômica e socialmente”. Faço desse post no Empreendedorismo Rosa, um “post-denúncia”.

Fonte da imagem: www.redetekoha.com.br

Um pouco de teoria:

"O empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais". (Joseph Schumpeter, 1949)

Os empreendedores são "aqueles que aproveitam as oportunidades para criar as mudanças". (Peter Ferdinand Drucker, 1970)

Foi-se o tempo (e não faz muito) no qual o artesanato, da maneira como é feito, encarado e incitado no Brasil, poderia fazer aflorar nas mulheres marginalizadas o “poder empreendedor” especificamente no que se refere à geração de renda. É importante frisar que não ignoro, não desmereço e muito menos acho de pouca importância as mudanças individuais, pessoais e de cunhos culturais que o trabalho artesanal (especialmente o em grupo) promove. Mas não considero que hoje a comercialização de uma produção artesanal possa ser o melhor caminho para geração de renda real, possível e digna para mulheres.

Um pouco mais de definições para embasar: o trabalho artesanal é normalmente caracterizado pela produção de caráter familiar, na qual o artesão possui todos os meios de produção e trabalha em sua casa ou comunidades. Aquele que pode ser chamado de artesão é o produtor que sabe realizar todas as etapas da produção: desde o preparo da matéria-prima, até o acabamento final. Diferente da produção industrial, não há especialização do trabalho para a confecção de algum produto.

Não falo por mim, que estou muito envolvida no mundo da produção artesanal de todo o país, mas aposto com você que está lendo este blog que pelo menos uma vez neste último mês, você viu, tocou, encostou, ouviu alguém falar ou usar algum produto feito artesanalmente ou mesmo ouviu ou tomou conhecimento sobre alguma iniciativa “de geração de renda para mulheres pobres”. Não sei chutar um número absoluto, mas chuto com bastante propriedade prática que mais da metade deles não dura mais de dois anos. E isso tem dois motivos bastante simples: concorrência (em preço) com produtos industrializados (naturalmente mais baratos); e concorrência com outras oportunidades de geração de renda.

Todos aqui com certeza já ouviram falar da “Nova Classe C” do Brasil. Tratando um pouco em números, segundo o Data Popular publicou em pesquisa no ano passado, desde 2003, cerca de 27 milhões de brasileiros saíram da pobreza. Nessa mesma pesquisa é apontado que 41% da renda familiar no Brasil vem do trabalho de mulheres. Além disso, “as mulheres da classe C são também as que mais levam dinheiro para casa: contribuem, em média, com 41 reais a cada 100 reais da renda familiar. Na classe A, a participação feminina é de 25 reais a cada 100. Isso significa que nas funções que exigem menos preparo, as mulheres ganham mais do que os homens [...]. Há quem aposte que, em dez anos, elas serão maioria absoluta entre os clientes nos estandes de vendas de apartamentos e nas concessionárias de automóveis.”

Ora, e o que tudo isso tem a ver com o artesanato? Tem a ver que boa parte das mulheres que eram “pobre pobres pobres de marré deci”, para quem os projetos de geração de renda por meio do artesanato eram voltados há 15 ou 10 anos, hoje compõe essa “nova classe média”. Dado: 7,5 milhões de mulheres da classe C com idade entre 16 e 24 anos (filhas daquelas que 15 anos atrás tinham os seus 20 e poucos - e viviam na seca, em cidades com IDHs baixíssimos - e parece que foram muito bem sucedidas em criar seus filhos por meio do artesanato!), 73% já ingressaram no mercado de trabalho. Os outros 25% estão na faculdade ou formadas, 36% delas citam como maior sonho de vida a realização profissional e (feliz ou infelizmente) essa realização “ensinada” nas faculdades não é a “carreira” de artesã.

Para essa população, hoje, no Brasil, trabalhar no mercado formal é mais vantajoso no que se refere ao potencial de geração de renda, além de ser um momento no qual, finalmente, há a oportunidade de ter uma renda relativamente fixa, com direitos trabalhistas e garantia de renda todos os meses.

Nesse cenário não é de se espantar que comunidades bastante tradicionais na produção de artesanato de cunho cultural e até mesmo educacional estejam parando de lidar com o artesanato como (única) fonte de geração de renda. Nos últimos meses, perdi as contas de quantas histórias escutei diretamente de comunidades e de colegas lojistas:

- “A ‘artesã x’ não está mais com a gente, ela está trabalhando no caixa do supermercado. Só vem para cá a noite. Quer deixar recado?”.

- “O ‘mestre artesão w’ não está mais fazendo essas peças, ele está hoje lá na borracharia; quer que eu vá chamar?” (ok, aqui foi uma ressalva para um homem artesão!).

- Minha mãe? Ela tá trabalhando.

- Tá bom, vou ligar na Associação então, o número ainda é o mesmo?

- Não, não é lá não que ela está.

Algo (e ainda não descobri exatamente o que e como) tem que ser feito. É alarmante para mim pensar que em breve o trabalho artesanal brasileiro será apenas um artefato cultural e social. Há consumo dele? Sim, ainda há. Mas sua produção está diminuindo, encarecendo e perdendo da concorrência (Indonésia, China, Malásia, Índia). Em janeiro de 2007 conheci Urucureá, uma comunidade no rio Tapajós - PA e me apaixonei. O Projeto Saúde e Alegria há mais de 25 anos trabalha na região com educação, desenvolvimento econômico e ambiental, e realiza um desses projetos de capacitação e geração de renda com o artesanato tradicional das meninas de lá. Um projeto desses que mencionei lá em cima. Eu acredito muito nas palavras de um dos fundadores do projeto, Eugênio Scannavino Netto, que diz: “nosso trabalho é de dar capacidade para que as comunidades vivam bem com seus direitos, vivam integradas ao mundo, com dignidade na própria cultura e na maneira delas de viver [...]. Se a gente conseguir fazer que a economia sustentável, que a economia tradicional deles seja uma economia competitiva para o mercado, você tem uma perspectiva profissional e econômica dentro do próprio modo e cultura deles. Na hora que o consumidor do resto do Brasil reconhecer a Amazônia ou reconhecer os produtos da floresta e comprar esses produtos olhando e vendo que é de origem comunitária, aí vai ter progresso econômico”. Eu, Andressa, tenho um senão: tenho medo de não conseguirmos a tempo fazer com que esses dois mundos se encontrem.

Andressa Trivelli é administradora de empresas pela PUC-SP, já trabalhou nos três setores da economia com Planejamento Estratégico e Gestão de Projetos. Lidera a gestão da Tekoha desde 2007 e atua como consultora em projetos de parceiros. Especialista em Empreendedorismo pela FGV/Goldman Sachs, através do projeto “10.000 Mulheres Empreendedoras do Mundo”

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