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COTAS PARA MULHERES: Uma discussão podeROSA

Por Laís Menini

A capa da revista Exame de junho trouxe cinco executivas brasileiras do mais alto escalão em empresas de grande porte e a pergunta: as mulheres precisam de cotas?

A matéria traz números avassaladores que pretendem formar a opinião pública – dentre eles o de que, no Brasil, apenas 8% da presidência das empresas é composta por mulheres. Além disso, outras informações são importantes para que pensemos no papel da mulher no mundo corporativo à luz das “cotas”, como o fato de essa política estar sendo implementada em diversos países da Europa e amplamente discutida por Hillary Clinton, nos Estados Unidos. Hillary é forte candidata a ser a próxima presidente dos EUA, o que a fará ser, sem sombra de dúvidas, a mulher mais importante do mundo.

Ainda no comecinho da matéria, outro dado alarmante: se mantivermos o ritmo atual de crescimento da participação das mulheres nas empresas, a equidade de gêneros no mundo corporativo levará 80 anos para ser alcançada. Essa informação mostra que não só devemos correr, agora, pelo que nos interessa, mas também pelo bem das próximas gerações. Em 80 anos, com sorte, nossas netas já terão igual participação e equiparação salarial total em relação aos seus colegas do sexo masculino.

Fonte da imagem: Trevisart

A discussão que rendeu capa na revista nacional mais importante do segmento mostra que, aqui no Brasil, nem tudo anda do jeito que a gente quer. Sim, mais mulheres abrem empresas diariamente. Sim, nunca foi tão fácil começar um novo negócio, e, sim, abre um negócio quem quer. Participa da vida corporativa quem quer. Mas reduzir a causa da participação das mulheres a um possível desinteresse pela carreira executiva é não levar em conta fatores históricos e sociais que as levam a, hoje, tomar suas decisões.

Desde sempre fomos treinadas a pensar que temos uma escolha muito clara na vida: a carreira ou a maternidade. As duas coisas podem até andar juntas, mas... é melhor não. Quando ela decide ter filhos, a pergunta automática da sociedade é “o que vai fazer com o seu trabalho”? Nem sempre as pessoas perguntam por mal. Talvez elas nem estejam sugerindo, de fato, que exista uma incompetência feminina em lidar com as duas coisas ao mesmo tempo (ou, no mínimo, incompatibilidade de agendas executivas e maternais). Mas, no fundo, é exatamente isso que preocupa as pessoas, principalmente as nossas pessoas mais próximas. Elas também foram treinadas a entender que nossa felicidade depende de escolhas, e que a gente vai ficar muito sobrecarregada se tentar escolher as duas coisas. Portanto, por mais que mães possam seguir carreiras de sucesso, a sociedade ainda prejulga que a mulher deve escolher uma coisa em detrimento da outra, e ainda prejulga que os homens tenham o caminho livre para ser pais e brilhar na carreira, pois é isso que os homens fazem.

Quando começo essa conversa em mesas de bar ou discussão de Facebook, muita gente já vem me dizer que estou muito “feminazi” para seu gosto. Transformar a luta pela equidade de gêneros em um discurso feminista-de-extrema não é tão difícil quanto parece, porque quando falamos inflamadamente sobre a igualdade de direitos sempre vai ter alguém pensando que a minoria que pede quer, na verdade, é ter mais direitos que o outro. Besteira. E quem fala que é besteira não é minha vã opinião (tá, minha vã opinião também acha besteira, mas não é só ela, oras!), e sim os números: de acordo com um estudo da consultoria americana McKinsey (e a partir de agora eu coloco aspas na reportagem da revista Exame), “no mercado brasileiro há um equilíbrio na admissão de recém-graduados nas empresas. No momento que as promoções começam a surgir, no entanto, elas vão ficando para trás. No Brasil, as mulheres detêm 35% dos cargos de média gerência e 16% dos altos cargos executivos. Entre os presidentes das empresas, elas são apenas 2%”.

Não sou especialista em nada, mas na minha interpretação esses números gritam apenas uma verdade: mulheres e homens são igualmente qualificados para qualquer cargo desde que tenham, obviamente, background para o cargo pretendido. No entanto, mulheres se retraem ao tentar subir na carreira, porque querem casar e ter filhos, e empresas as retraem porque, se elas escolherem casar, ter filhos e trabalhar, vem aí períodos de licença maternidade com os quais os gestores não querem lidar. Enquanto isso, os homens que galgam seus degraus do sucesso também viram maridos, pais e, mesmo assim, o caminho do crescimento profissional continua livre para eles. Nós achamos ótimos! E também queremos essa oportunidade.

Enquanto a sociedade continuar acreditando que mulheres não podem ter tudo, ou não são competentes para ter tudo e gerir empresas ao mesmo tempo – e, pior, incutindo nas mulheres essa crença –, é bobagem descreditar medidas reguladoras, como as cotas. O nome choca porque sempre vem acompanhado de preconceito, negação e muito debate ferrenho, além de trazer a discussão ao patamar meritocrático que não tem muito valor de argumentação em situações historicamente consolidadas, como a desigualdade de gêneros e o racismo. Segundo a ministra alemã Manuela Schwesig, “o grande erro daqueles que são contra as cotas é acreditar que, sem medidas reguladoras, apenas os melhores chegam ao topo – tanto homens como mulheres. Isso claramente não ocorre. O princípio da igualdade de oportunidades entre os gêneros só funciona de cima para baixo”.

Além disso, no caso das cotas para mulheres em cargos estratégicos e de gerência, a meritocracia é um conceito bem complicado. As cotas não preveem jamais que alguém desqualificado encontre o cargo por puro acaso, elas apenas pedem que o princípio da equidade seja adotado. E quantas mulheres e homens vemos por aí em altos cargos em que, passando longe da meritocracia, foram indicados ao posto por uma forte rede de contatos – e não sabem realmente o que estão fazendo? A discussão vai longe, mas uma coisa é certa: cotas corrigem desigualdades sociais históricas. E nunca antes na história da humanidade, como diria um ex-presidente (homem), se falou tanto em quanto as mulheres foram, e continuam sendo, excluídas do ambiente corporativo por uma série de preconceitos.

Eu fico no time da Sheryl Sandberg, executiva do Facebook e citada na matéria da Exame, quando em seu livro, Faça Acontecer, ela diz que medidas reguladoras e qualquer outro tipo de estímulo à participação das mulheres que sonham em ser executivas no mundo corporativo podem e devem existir até que não precisem existir mais.

Enquanto mulheres tenham que fazer escolhas por serem levadas a acreditar que não dá para ter carreira e filhos, enquanto elas ganhem menos do que seus colegas homens mesmo desempenhando as mesmíssimas funções, enquanto formos chamadas de “feminazi” ao defender um ponto de vista igualitário, toda força que a sociedade consiga reunir em favor da igualdade de gênero será bem vinda, seja a força vinda da esfera privada ou pública, através ou não de cotas. Até o dia em que a gente veja que a realidade mudou, é pelo direito de fazer o que a gente quer da nossa vida que devemos lutar.

Os homens perdem demais ao inflamar o discurso sexista (e super fora de moda) de que lugar de mulher é qualquer outro, que não a mesa de reuniões. Mulheres empoderadas dão aos homens a mesma possibilidade de escolher. Você já parou pra pensar em quantos pais de família gostariam de ser mais donos de casa do que gestores? O inverso, embora não tão comum, acontece: do mesmo jeito que a sociedade predita que a mulherada deve ficar em casa cuidando do lar, ela predita que os homens devem trabalhar feito loucos para prover à família tudo do bom e do melhor. Isso acaba frustrando as duas partes do casal.

Convido você a refletir sobre esse assunto e a tecer sua opinião sobre as cotas para mulheres em cargos de alto escalão nas empresas e esferas públicas. Convido, também, a ver se não está, sem querer, xingando a pessoa que dirige o carro da frente e automaticamente supondo que esta é mulher, ou achando completamente vazio um discurso de igualdade vindo de uma moça que trabalha contigo que trabalha tanto quanto seu colega direto, mas ganha 500 reais a menos. Convido você a fazer parte da mudança que a gente quer ver no mundo, a acreditar que tem lugar pra todo mundo, e a perceber que as mulheres devem ser valorizadas pelas suas capacidades, habilidades e realizações.

Ninguém nunca comprovou cientificamente que o cérebro da mulher é menor do que o do homem, que ela merece menos porque, biologicamente, é menos capaz. E, de acordo com a previsão do Fórum Econômico Mundial, temos 80 longos anos pela frente para abrir os olhos do mundo para essa verdade irrefutável. Ou, pelo menos, até que alguém nos prove o contrário.

(PS: se você é mulher e sabe que seu lugar no mundo é bem maior do que aquele que alguém tenta te impor, vem para o Athena, ROSEAR com a gente, em outubro! Pode acreditar: a história anseia ser escrita por mulheres que brilham.)

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