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Dayse: Uma grande mulher

Por Ana Carmen Nogueira

Minha mãe era filha de fazendeiros do interior de São Paulo. Carregava com ela toda herança e o orgulho de ser do sertão do Estado. Cresceu em Colina, pequena cidade que fica no norte do Estado de São Paulo. Seus pais tiveram 16 filhos e criaram 11. Mamãe era da turma das mais novas. Meu avô adorava sair para caçar e ficava dias fora de casa nesta empreitada. Fazia berrantes maravilhosos com o osso do chifre de boi. Herdei dele pequenas cestas que guardo com muito orgulho. Os berrantes, infelizmente, nunca vi.

Minha avó nasceu em Rezende (RJ) e veio para o interior de São Paulo com os irmãos mais velhos com quem morava. Seus pais morreram quando ela era muito jovem. Conheceu meu avô na região de Barretos e se casaram. Vovó tinha muito dengo com seus filhos, quando eram bebês sempre cuidava de colocar um lençol só deles em cima da cama. Para que alguém pegasse seu bebê era preciso lavar as mãos e colocar uma fralda limpa cobrindo o peito para que a criança não tivesse contato com a roupa que vinha da rua.

Fonte da imagem: arquivo pessoal

Quando um dos filhos foi chamado para lutar na Segunda Guerra Mundial, vovó quase morreu. Os filhos brincavam que ele era a sua água de cheiro, o seu queridinho. A filha mais velha morreu com 16 anos de gripe espanhola. Minha mãe era gêmea de um menino chamado Gabriel. Ele era muito mais forte e esperto que mamãe. Aos dois anos de idade corria pelo terreiro atrás das galinhas, enquanto minha mãe ainda tentava caminhar com mais desenvoltura. Gabriel morreu de desidratação. Naquele tempo era assim. Depois de alguns anos, vovô resolveu vender a fazenda para um parente. Mamãe devia ter uns 16 anos quando se mudou para a cidade de São Paulo com a família. As irmãs mais velhas já estavam casadas, cuidavam das mais jovens quase como filhas. As mais novas andavam sempre juntas, Zelda, Dayse e Noilda. Inseparáveis a vida inteira. Casou-se com meu pai aos 28 anos de idade. Papai era grande amigo do marido de uma de suas irmãs mais velhas. Viveram juntos até a morte de papai em 1992.

Mamãe amava sua família, suas raízes e seus frutos, filhos, netos e bisnetos. Amava os sobrinhos com grande preferência para com as sobrinhas. Defendia com unhas e dentes seus queridos e esses eram muitos.

Minha mãe me deixou histórias. Muitas histórias. Às vezes repetia as histórias e eu ficava sem paciência, mas hoje sei que as guardei de tanto as escutar. Essa é minha herança, a história oral de minha família. Acredito que as histórias vão me compondo. Ecos do passado se juntam ao meu presente e vão construindo o meu futuro. Sou o que sou porque ganhei de presente as histórias de meus pais e mais intensamente de minha mãe. Mulheres sempre conversam. Mulheres são as transmissoras das tradições orais. Tradições essas transmitidas em forma de relato, em conversas e confidências entre mães e filhas. Este é o meu legado: transmitir nossa história para compor novas histórias. Ricas histórias que são recriações de mundos. Histórias de mulheres, minha herança, minha força e orgulho, minha raiz.

Mamãe e eu entramos em choque quase que a vida inteira. Houve momentos que nos afastamos, mas eu consegui perceber a tempo o quanto essa mulher era importante para mim. Aprendi a perdoar, aprendi a amar, aprendi a agradecer. Nos reencontramos, nos enxergamos e nos reconhecemos.

Ainda agora ao escrever esse recorte das suas histórias, escuto sua fala e sinto saudades do seu amor. No sarau de Natal de 2000 cada um tinha que dar de presente uma poesia. Minha mãe me surpreendeu ao declamar Era e... não era! Do livro Saudade de Tales de Andrade. Foi lindo.

Era e... não era!
Imaginem vanceis;
Eu andava viajan’o
Andava corren’o mundo;
Mas um dia...
Poesia completa no site: http://www.portoportal.com.br/materias/saudade.htm

 

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