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De contrarregra a protagonista

Marília sempre teve algo a mais. Algo além da beleza e da inteligência. Uma espécie de brilho, de carisma que fazia todas as cabeças se voltarem em sua direção. As amigas adoravam as histórias da coleção de fãs e da forma como ela conhecia as pessoas mais incríveis, nas situações menos prováveis.

Fonte das imagens: Weheartit

Certa vez, mal humorada com o voo às 06h00 da manhã, sem maquiagem e de cabelo em coque, Marília reclamava da demora no atendimento, no aeroporto de Congonhas. Eis que o sujeito a sua frente vira, concorda e puxa papo. Claro que era um homem lindo, elegante. Mais um executivo de sucesso que logo se encantou. Queria conhecê-la, ouvi-la. Mas Marília... nada.

Ela também parecia não enxergar o bonitão descolado da aula de ioga, o roqueiro intelectual do andar de cima, o dono do restaurante bacana do bairro. Só se conectava a um tipo específico de homem. E um tipo que não fazia o menor sentido.

Marília era pesquisadora, viajava o mundo com seus estudos e ganhava um dinheirão. Era de se esperar que escolhesse um parceiro capaz de impulsioná-la. Alguém que soubesse amar de igual pra igual. Alguém à frente do velho modelo de relacionamento no qual o homem brilha e a mulher dá suporte, diz “amém”.

Mas cheia de contradições, decisões interiores, só baixava a guarda para os que buscavam uma fêmea para casar e administrar a vida doméstica. Era esbarrar num desses, namorar e noivar em três meses. Marília chegou aos 30 com o saldo de um breve casamento e três noivados frustrados.

Levou muito, mas muito tempo para ela perceber o padrão de sua caminhada repleta de tropeços. Era noite de uma terça-feira qualquer. Marília deitou e sonhou profundamente. O sonho vivo, rico em detalhes, descortinou toda a dinâmica da vida dela. Uma sequência de erros nascidos da repetição de enganos cometidos por avós, mãe, tias e demais mulheres que foram referências para Marília.

Para ela, assim como para tantas outras, o ciclo perdedor começava ao perceber, intuitivamente, a presença do tipo de homem que busca uma parceira para ressaltá-lo e servi-lo. Na maioria das vezes, o modelo não é óbvio. Pelo contrário. Esses homens costumam ser justamente os que tratam as mulheres como musas. Parecem venerá-las. Adoram dar presentes, exibir e exaltar a beleza de seus bibelôs.

Diante de um deles, a fêmea quer se mostrar perfeita. Quer agir como uma boneca atenta a todos os desejos do amado. Acredita que, se anulando e transbordando cuidados, vai ser a primeira no mundo do escolhido. Engano.

Na realidade, quando entra nesse teatro de perfeição feminina, a mulher sai de cena. Cuida da retaguarda para que seu homem ame primeiro a si mesmo, a mãe, aos filhos. Esquece dos próprios sonhos, projetos, compromissos. Primeiro, atender o bem amado. Pouco a pouco, assim como Marília, as mulheres se conformam com o fato de serem a segunda colocada na própria vida. E, sem perceberem, entram na rota do declínio.

Sem a devida atenção, os negócios já não vão tão bem. Os amigos se afastam. A graça, o vigor, a alegria de ser protagonista, sutilmente desaparecem. E ela passa a viver numa espécie de zona de conforto. De conformismo com o erro de querer ser a primeira, mas se colocar como segunda.

O sonho acordou Marília.  Ela cortou os tipos “perfeitos”, segundo os velhos padrões que tinha como faria com brigadeiros e macarronadas numa super dieta.  Abriu espaço para novidade de vida.  Novos trabalhos, novos livros, novas companhias.  Não foi nada, nada fácil, mas ela se reinventou.  E aos poucos, aprendeu que seu valor vai muito, mas muito além da banal capacidade de ser fofa e encantar homens.

Hoje vive realizada.  Nunca produziu tanto, dormiu tão pouco e foi tão feliz.  Vez ou outra consegue encaixar a agenda com a do namorado, também pesquisador cheio de compromissos.  A última notícia que tive foi que conseguiram se encontrar para um fim de semana romântico em Singapura.  Pensa que ela quer outra vida?  Ah, mas não quer mesmo.

Natália Leite é jornalista e líder do Projeto Mulher de Milênio em São Paulo.

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