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Em sintonia com o “eu” coletivo

Por Mara Gabrilli

Não me canso de dizer que sou um exemplo prático de que sozinho não se chega a lugar nenhum. No meu caso, a expressão ganha sentido literal, mesmo! Afinal, sem a ajuda de uma pessoa, não saio do lugar, por motivos óbvios: a falta de uma “mãozinha” alheia para empurrar a minha cadeira impede que eu me locomova para qualquer lugar. Até aí, nada de novo para ninguém, a não ser para mim mesma, que, às vezes, nem me lembro que (ainda) não posso andar. Na verdade, o que poucas pessoas sabem é que a perda de movimentos ocasionada pela minha tetraplegia fez brotar em mim um incrível espírito cooperativo – e que, a propósito, anda estagnado em muita gente dotada de plenos movimentos, diga-se de passagem.

Aos 26 anos, ao me deparar com uma severa deficiência física, vi que precisava me reinventar para encarar a nova vida que batia a minha porta: utilizar uma cadeira de rodas em um Brasil sem acessos para aqueles, que, como eu, tinham uma deficiência. Melhorar a minha vida, então, tornou-se um plano muito além do meu próprio universo. Afinal, quanto mais barreiras eu derrubasse em nome de acessos, mais pessoas poderiam passar, caminhar, cadeirar ali. De tijolinho em tijolinho quebrado, mais cidadãos poderiam, enfim, usufruir do que lhes foi subtraído: o direito de ir e vir com dignidade.

Fonte da imagem: Google

Essa aura de coletividade, que rege minhas ações desde então e que me faz ver que a minha vida melhora quando a do próximo também evolui, aos poucos, passou a fazer parte do meu entorno, atingindo as pessoas que me circundam e formando uma espécie de ‘corrente do bem’. Hoje, vejo que meus funcionários foram todos arrebatados por essa vontade de transformar. Aliás, seja lá qual for a habilidade ou a competência de um candidato que pleiteia uma vaga em minha equipe, espírito de equipe, solidariedade e senso de justiça são pré-requisitos básicos, e que não podem faltar, e devem ser aplicados na prática, no dia a dia, convivendo com as diferenças e respeitando as diferentes capacidades de cada um – em uma orquestra ‘harmoniosamente diferente’, formada por pessoas com e sem deficiência.

Ao quebrar o pescoço, deparei-me com novas necessidades, mas, também, com perspectivas inimagináveis. Perdi movimentos, mas ganhei, em compensação, uma capacidade louvável e para poucos: a de pedir ajuda. Passei a confiar no cuidado do outro, na força de braços que não fazem parte do meu corpo, em mãos que eu nunca havia usado – extensões do meu corpo que trabalham para que eu possa tornar possíveis as minhas ações em prol do outro – um conjunto de mãos, braços, rodas, mentes e corações (e haja coração!) trabalhando em sintonia para que mais e mais pessoas possam se sentir incluídas. Juntos somos muito mais fortes. Esta que vos fala é a maior prova disso, a começar por esse texto que você acaba de ler: uma mãozinha não faz mal a ninguém, não é mesmo?

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