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Empreender é uma aventura

Por Jean Sigel

Esses dias encontrei, no fundo de uma gaveta, meu primeiro contrato de trabalho oficial e o primeiro registro na minha carteira de trabalho quando eu tinha 18 anos, em 1993. Me tornava ali professor de inglês enquanto começava a faculdade de comunicação. Vinte anos se passaram. E esse continua sendo o primeiro, último e por enquanto o único registro em minha intocada carteira de trabalho. Naquela mesma gaveta achei outra relíquia, uma matéria escrita por uma amiga – na época estudante de jornalismo – sobre o primeiro negócio que eu abria também com meus 18 anos. Uma empresa de ecoturismo, aventuras e projetos educacionais em meio à natureza. Dei aula durante todos os anos da faculdade, mas justamente pra que eu conseguisse bancar minha recém-nascida empresa. Era para isso que servia aquele registro. E por isso acho que ali eu havia cumprido minha missão como CLTista. Minha escola mesmo foi minha primeira empresa. Ali eu sabia que o meu caminho era empreender e desde então não mais parei de trabalhar com minhas ideias.

 

Fonte da imagem: Agência Bolacha

Empreender, taí uma palavra que virou moda. Todos falam em empreender. Empreendedores falam obviamente em empreender. CEOs de grandes empresas falam em empreender. Mães executivas desiludidas falam em empreender. Empresas querem mais funcionários intraempreendedores. Jovens querem empreender. Puxa, que legal! Se todos empreenderem, teremos mais empresas, mais negócios, mais dinheiro, mais emprego, mais felicidade e mais oportunidades. Mas, às vezes, não é bem assim! Depois de 20 anos empreendendo, abrindo e fechando empresas, acertando e errando cheguei a uma conclusão: empreender é uma louca aventura. Porém, não me entendam mal, continuarei empreendendo, ajudando a quem quiser empreender e recomendando que empreendedorismo cada vez mais faça parte de rodas de famílias, escolas e universidades. Mas que empreender é uma aventura, isso é. Só que nos dois sentidos da palavra. Tenho “mentorado” jovens empreendedores, feito palestras em universidades e falado em eventos sobre o tema e o que tenho visto é que há uma infinidade de mitos e inverdades sobre o tal tema empreendedorismo. Basta enxergar para ver. Mas para isso é preciso estrada e experiência. Aqui vão algumas alucinações que podem explicar um pouco mais o que quero dizer.

Em primeiro lugar empreender significa abrir mão. Abrir mão de estabilidade, que convenhamos em um país tão instável e com perspectivas desanimadoras como o nosso, significa quase se livrar do santo graal. Abrir mão de certezas ou convicções sobre pessoas e negócios, pois ser dono do próprio negócio significa ter a capacidade de ler e entender as pessoas e as mudanças no dia a dia com a rapidez que pode significar a sobrevivência do seu negócio. E, nesse sentido, vejo poucos preparados para o incerto. Quer empreender, comece a aprender a mudar, constantemente, senão não vai vingar. Mudanças são ferramentas que bons empreendedores utilizam para corrigir rumos e avançar, mesmo que às vezes avançar signifique até perder dinheiro, tempo e saúde, pra ganhar depois.

Outro mito que tem me incomodado é ouvir jovens declararem, quase como mantra, principalmente no caso das startups que pipocam por aí, é que a sua ideia é tão boa, tão avassaladora, que só precisa de duas coisas pra bombar de ganhar dinheiro: receber apoio, ser sustentada ou incubada por alguém, e também se possível receber um milhão de reais, ou até melhor, dólares. Fácil, mas não concordo. Se a ideia é tão incrível, ela deveria ser capaz de se automobilizar. Nem que seja uma pequena parte dela para que ganhe força e apoio. Se a ideia é boa, não tenho dúvida de que ela irá adiante, mesmo sem dinheiro, sem financiamentos superlegais ou algo do tipo. Afinal num país com crédito caríssimo e cultura colaborativa ainda engatinhando, não conte com isso como a salvação do seu negócio. Uma ideia boa é capaz de mobilizar outras pessoas, encantar clientes e irremediavelmente ela se autofinanciará, mesmo sendo ainda pequena. Mas demora. Não é da noite para o dia. E isso trava e filtra ideias e negócios, pois só os resistentes sobrevivem nesse mundo empreendedor. Por isso, tenho aconselhado muitos empreendedores a não ficar esperando a fada madrinha, o governo melhorar ou um milhão na conta como passe de mágica. Pode até acontecer, mas, convenhamos, é muito improvável. Aceitar isso fará com que sua ideia seja testada na vida real, começando com pouco e ganhando músculo pra provar que realmente é boa. Caso contrário, desista e parta pra outra. Rápido.

Finalmente empreender não é melhor ou pior do que ter um emprego fixo. Só é diferente. Não tem segredo, mas não é pra todos, mesmo podendo ser. Assim como talvez um emprego fixo não é pra todos. Empreender é pra quem entende que cair é parte integrante do processo diariamente e sabe lidar com isso pra trabalhar no próximo dia. Que o patrão é seu próprio cliente e, apesar de não mandar em você, vai te fazer correr atrás do que é preciso ser feito. Sem lenga-lenga. É saber que, apesar de não gostar disso ou daquilo, terá que irremediavelmente executar em algum momento você mesmo, pois não poderá delegar para alguém. É estar disposto a falar com as pessoas sem medo de arriscar, pedir ou aguentar. É encarar o julgamento de muita gente que te olha torto ou te julga pelo simples fato de você estar fazendo algo que você acredita, do seu jeito. Finalmente, se você não acredita no que você está fazendo, desista, não empreenda, não encare, porque empreender é uma aventura muito cruel e cobra a conta. Mas se você acredita, mesmo sem dinheiro, sem apoio, sem um milhão de algum anjo ou um escritório bacana de uma incubadora, acho que valerá a pena seguir adiante, porque no final das contas empreender é uma incrível aventura.

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