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Ignácio de Loyola Brandão

O verão na praia Grande do Bonete é uma delícia. Passar o mês por lá é esquecer completamente o trânsito de São Paulo, a irritação do dia a dia, a pressa, o desgaste. Lá retornamos para nós. Voltamos a respirar com mais calma, paramos para sentir, observar, ler um bom livro, fotografar a natureza, desenhar pequenas coisas e caminhar. Em um desses dias quentes de verão, fomos todos convidados para um bate-papo com Ignácio de Loyola Brandão lá no tablado. Foi Renilva Guimarães, moradora do Bonete, quem organizou esse encontro.

Fonte da imagem: Arquivo pessoal

O tablado é o centro da comunidade caiçara. É uma estrutura feita de piso de madeira coberta por telha, mas sem fechamento lateral e com bancos de madeira em toda sua volta. É como uma praça coberta. À sua volta existem algumas construções importantes, a igreja, a escola e o restaurante. É no tablado que acontecem as festas, as cantorias, os encontros, os cursos e as palestras. Foi lá que aconteceu o encontro com Loyola.

Com toda sua simpatia e carinho Loyola foi contando um pouco de sua vida e de seu processo criativo e relembrou as pessoas que foram fundamentais para que ele se tornasse um escritor, suas professoras. Sim, as professoras que ensinam a escrever as primeiras palavras e que incentivam nas primeiras leituras. Foram elas, as professorinhas do interior do estado de São Paulo que foram lembradas como essenciais para a construção de conhecimento e desenvolvimento profissional. Foi para elas que ele dedicou o livro “O menino que vendia palavras”, vencedor do prêmio Jabuti de 2008 como melhor livro de ficção.

A valorização de nossos primeiros mediadores da cultura foi a linha condutora de sua fala. Nossos pais, avós, professores compartilharam seus saberes conosco e fomos agregando esses saberes à nossa bagagem cultural. Na construção de nós mesmos, empreendedores, médicos, advogados, cientistas, artistas, filósofos, encontramos ao longo da vida com pessoas que nos provocam e nos ajudam a escolher e que nos oferecem espaço para entender essas escolhas. Com eles ganhamos o tempo da experiência e o tempo do silêncio.

O bonito da vida é que estamos sempre aprendendo, construindo e transformando. Mas não fazemos isso sozinho, porque não tem graça e porque não reverbera, não ressoa. Aprendemos com o outro, aprendemos compartilhando e construindo trajetórias. Como diz Deleuze (1992, p.156) "O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles não há obra. Podem ser pessoas – para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artistas – mas também coisas, plantas, até animais, como em Castañeda. Fictícios ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios intercessores. É uma série. Se não formamos uma série, mesmo que completamente imaginária, estamos perdidos. Eu preciso de intercessores para me exprimir, e eles jamais se exprimiriam sem mim: sempre se trabalha em vários, mesmo quando isso não se vê. E mais ainda quando é visível: Félix Guattari e eu somos intercessores um do outro."

O essencial seria então as pessoas que nos escutam e que escutamos. Experiências de vida que nos fazem olhar mais devagar, prestar mais atenção, olhar pequenos detalhes, criar narrativas, trazer memórias, investigar, descobrir, tornar visível. Loyola falou sobre uma de suas primeiras histórias que escreveu ainda na escola e que Dona Lourdes, a professora, leu para classe. A classe toda naquele momento enxergou o menino e ele se sentiu visto e gostou. Queremos criar, mas queremos que os outros vejam o que criamos, é um compartilhar para engradecer, contaminar e gerar mais saberes.

Loyola nos ensinou a guardar as preciosidades da vida para falar sobre ela. Aprendi com ele a guardar as coisas que estão ao meu redor, que me tocam e que gravo, outras vezes escrevo e outras muitas desenho.

Aquele dia de verão no Bonete foi marcante, deixamos a praia para escutar histórias da vida que falavam de nossas vidas, de nossos intercessores. Loyola, assim, sem saber, naquele momento, se tornou meu intercessor.

Referência
DELEUZE, Gilles. A transformação do padeiro. In: Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992

Ana Carmen Nogueira é mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie. Graduação em Artes Plásticas. Especialista em Educação Especial com aprofundamento na área de deficiência visual e Arteterapia. Coordenadora do grupo de mulheres caiçaras “Saíras do Bonete” em Ubatuba, São Paulo. Desenvolve pesquisa de pintura encáustica no Ana Carmen Nogueira Ateliê de Artes.

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