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O lugar do poder feminino

Por Sandra Mari E. Franz

Outro dia, numa conversa informal, fui questionada sobre o gosto pelo poder, no caso seria o suposto poder que eu assumiria mediando processos para autoconhecimento e decisão profissional. Respondi que quando o poder se sobressai em meu trabalho, este não cumpre o objetivo, pois sua função é exatamente empoderar o meu cliente, colocá-lo no centro das ações. Mas sob a insistência do meu interlocutor fui, de forma desprevenida, elaborando o meu percurso em relação ao meu exercício de poder, o que agora peço permissão para compartilhar, buscando provocar uma pequena reflexão sobre o assunto.

Contos de fadas falam sobre mulheres fortes, sábias e com poderes malignos; também apresentam modelos de mulheres frágeis, encantadas e encantadoras, ingênuas e boazinhas, sempre resgatadas por príncipes e heróis. Ora, se pensarmos nesse paradigma representativo do feminino, poderíamos dizer que o poder de transformação em sua forma mais concreta reside nessa caricatura do mal, representada pelas bruxas. Por outro lado, as princesinhas aparecem como o sujeito passivo que sofre o encantamento tanto da bruxa quanto do príncipe.

Photo Credit: Nick-K (Nikos Koutoulas) via Compfight cc

É recorrente em meus atendimentos a necessidade de despertar mulheres para toda a genealogia feminina que habita no centro de cada uma, pois parece que nossa sociedade patriarcal cultuou por muito tempo a mulher como um ser quase transcendental, cuja única realização permitida era a maternidade, um papel sublime e encantador.

Talvez isso tenha contribuído para relegar a mulher a uma exclusão do processo histórico. Assim, um mundo funcional, violento e opressor se instaura e a figura feminina passivamente sobrevive à margem desse processo. Nessa linha narrativa, a mulher passou a construir, mesmo que timidamente, marcas históricas quando pôs a mão na massa, quando se tornou mão de obra desse sistema. Foi essa experiência que a levou simbolicamente a sair do castelo, a ampliar o olhar para a realidade, fazer exigências e realizar.

Talvez hoje estejamos vivendo esse misto entre a princesa ingênua, que se deixa seduzir pela superficialidade da imagem e a necessidade de realização concreta, de empreender. Empreender primeiro na própria vida, ocupar o seu lugar de subjetividade e agir a partir de seu centro vital. Esse centro é particularmente íntimo, tem força poética de natureza transformadora. É o lugar onde reside a deusa, aquela que nas sociedades pré-patriarcais diluía o poder em relações de parceria. Talvez, ainda, o grande desafio feminino seja superar a ideia de que o poder transforma, pois é provável que relações de poder apenas reproduzam relações de dominação, perpetuando assim o modelo vigente, apenas substituindo os agentes.

Assim, penso que o poder por si só é mera competição de tolos. Ao contrário: agir empoderada pela força da ancestralidade feminina, que em parceria gestou o mundo, é superar paradigmas, é transgredir modelos de dominação, é abrir espaço para a reinvenção de si, é gestar e dar luz a um lugar de convivência melhor para todos.

Recue, observe e compreenda seus modelos de poder e toque em sua deusa. Experimente realizar a partir da equidade entre o poder e a generosidade. Gosto de acreditar que o lugar do poder é um lugar silencioso de observação ampliada onde a humildade toma a proporção da força essencial para a realização, não mais como conto de fadas, mas como poesia concreta da vida.

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